Penso que enquanto estava lendo esse livro adotei uma camuflagem incolor, ou porque essa semana tenha sido assim: cinza, chuvosa e nublada como a capa do livro e as palavras de Tazaki; ou porque já estava propensa a isso e essa leitura tenha sido nada mais que uma infusão de sentimentos incolores como os descritos pelo personagem. 

 O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação … 

Desde o início, não estava esperando pelo que viria dessa leitura, não que tenha sido uma epifania ou despertado sentimentos nunca antes entendidos por mim. Foi justamente o oposto. Às vezes você não está preparado para ler palavras que você não conseguiu expressar antes, mas que poderiam ter sido suas. 

“Desde julho do segundo ano da faculdade até janeiro do ano seguinte, Tsukuru Tazaki viveu pensando praticamente só em morrer”

E foi assim que começou o primeiro capítulo.

Tsukuru tinha um grupo de amigos no ensino médio, eram cinco no total, que possuíam uma relação simbiótica de amizade. Eram inseparáveis. Porém, devido a uma situação que não é revelada inicialmente, ele é excluído do grupo sem nenhuma explicação. Isso causou um choque tão grande nele que não conseguiu nem questionar os quatro para descobrir o motivo. Como já estava na faculdade e morando em outra cidade, não foi difícil manter a distância física dos demais, no entanto, a sensação de abandono que viveu foi tão terrivelmente sentida por ele, que passou os próximos seis meses pensando em morrer. Não que estivesse pensando em suicídio, mas simplesmente não tinha mais vontade de viver.  Às vezes pensava que se se concentrasse bastante poderia parar os batimentos do seu coração.

Depois de recuperar sua saúde mental e física, são percebidos diversos vestígios do trauma que sempre o acompanhou. Primeiro é o fato de que seus quatro amigos tinham no sobrenome o caractere de escrita japonesa que remete à uma cor e Tsukuru não tinha, isso já o fazia se sentir excluído por ser o “incolor”. A falta de cor para ele também se estendia a sua personalidade e características, as quais considerava insípidas se comparadas com o grupo. Via a si mesmo como um recipiente vazio, sem nada de relevante para que as pessoas precisassem realmente dele. Por isso elas vinham até ele e depois de um tempo iam embora de sua vida. 

Tazaki trabalha na construção de projetos de estações de metrô. Na verdade, essa era a única coisa em sua vida que teve mesmo vontade de fazer, que o fez esforçar-se para alcançar.  Assistir ao fluxo contínuo do ir e vir das pessoas, pessoas que possuem lugar para onde ir, sempre lhe trouxe paz.

“Mas Tsukuru resolveu não se ater mais a essa questão. Por mais que pensasse, provavelmente não encontraria uma resposta. Ele depositou essa dúvida em uma das gavetas com a etiqueta ‘pendente’, para examinar depois, algum dia. Dentro dele havia várias gavetas assim com muitas dúvidas abandonadas.” 

Esse é um assunto bastante explorado na obra, como se o autor fosse um perito na construção das estações, o que depois de um tempo lendo tantos detalhes deixa a leitura monótona. Mas entendo que isso é necessário para o desenvolvimento da história por se tratar de uma parte muito importante da vida de Tazaki. 

Quando Sara, a mulher com quem está saindo, em uma de suas conversas questiona sobre os amigos da adolescência de Tazaki, este conta sobre o grupo de amigos que teve e como foi excluído da harmonia do grupo. Sara percebe que a situação mal resolvida do passado de Tsukuru está ainda refletindo na sua vida e consequentemente no relacionamento dos dois. Pede que ele revele o nome deles e depois de pesquisar sobre cada um, entrega as informações a Tazaki para que ele, caso deseje, reencontre-os. 

E assim começa a parte mais importante da peregrinação de Tazaki.  

Embora peregrinação neste caso não esteja relacionado a uma viagem a um lugar de devoção, nem a uma terra distante. Penso que esteja mais ligada a uma jornada interna do personagem em autodescoberta. Em tentar descobrir qual é o conteúdo de seu frasco, a cor que possui…  

Somente depois de Tsukuru rever os amigos, conversar e estar aberto à entender o que levou cada um deles a fazer o que fez, vi o livro ganhar um pouco mais de cor. Foi bastante desagradável ler as palavras que Tazaki tem para si mesmo e a falta de autoconfiança… enfim, são coisas que quando fazemos com nós mesmos não parece tão horrível, mas ouvir outra pessoa fazendo, ou no caso ler, é intragável, sério. 

Por que pensar tão pouco de si mesmo? Como é angustiante uma pessoa que não enxerga a própria cor.  

Algumas considerações … 

De verdade, me senti em uma espécie de névoa de apatia enquanto lia a primeira parte desse livro. Não imaginava que de estações de metrô acabaria chegando a um lugar desses dentro da minha própria consciência. Os sentimentos dos personagens não trazem nenhum calor. Cada vez mais é possível sentir a atmosfera se liquefazendo, assim como a vida. 

“Talvez eu seja uma pessoa vazia, sem conteúdo, Tsukuru pensa. Mas justamente por não ter conteúdo, algumas pessoas encontram o seu lugar dentro dele, mesmo que seja temporariamente.” 

Tudo o que uma leitura evoca pode dar conteúdo para outro livro, um mero texto como esse não pode tocar nem a superfície.   

Apesar de ter comprado esse livro há tanto tempo e só agora ter tido a coragem de tirar do plástico para ler, porque eu realmente pensava que seria uma leitura agradável de uma tarde de domingo, não me arrependo de ter lido só agora. Algumas coisas fazem mais sentido em certos períodos da vida e esse livro é uma dessas coisas para mim. 

“Foi então que ele finalmente conseguiu aceitar tudo. Na camada mais profunda da alma, Tsukuru Tazaki compreendeu. O coração das pessoas não está unido apenas pela harmonia. Pelo contrário, ele está unido profundamente pelas feridas. Está ligado pela dor, pela fragilidade. Não há silêncio sem grito desesperado, não há perdão sem derramamento de sangue, não há aceitação sem travessia por uma perda dolorosa. É isso o que há no fundo da harmonia verdadeira.” 

Apesar de passar a maior parte da leitura dentro desse miasma, ao fim pude sentir como se algumas das minhas próprias dores refletidas naquelas páginas fossem ou pudesse ser curadas.  

Esse foi meu primeiro contato com a obra de Haruki Murakami, e embora seja dito por alguns que essa obra “revela uma nova faceta de Murakami”, para mim revela a única que conheço. Talvez leia mais obras do autor no futuro, não posso dizer que virou um livro preferido da vida. Está mais para uma experiência que você precisa viver pelo menos uma vez.  

Sobre a literatura Japonesa 

Antes desse, vieram Querida Konbini de Sayaka Murata, Silêncio e Samurai de Shusaku Endo. E acho que estou começando a entender como pensam os japoneses. Pelo menos no que diz respeito à literatura. Geralmente as coisas são mais construídas dentro dos personagens do que fora. Enquanto esperava pelos grandes acontecimentos externos, os maiores conflitos estavam acontecendo dentro da consciência de cada um.  

Ainda existem várias obras da literatura japonesa que quero ter contato e algumas delas já estão me esperando para serem lidas. 

Depois de tanto tempo sem escrever, o resultado foi esse texto tortuoso, mas talvez tenha conseguido passar alguma essência através dessas palavras. Assim eu espero.