Então eu li O sol é para todos. Vivi no Condado de Maycomb, brinquei com Dill e Jem na casa na árvore. A consciência de Scout ecoava em minha cabeça. Aprendi com Atticus e Calpúrnia. Provei os deliciosos bolos da srta. Maudie, tive medo de passar em frente à residência dos Radley.

 


Se este livro está em todas as listas de livros que você deve ler antes de morrer ( nome que eu acredito ser desnecessário, nunca vi biblioteca em cemitérios) é por uma boa razão. É daquelas leituras que você guarda no coração. É aquela história que inevitavelmente mexe com o ser humano, faz brotar uma nostalgia de infância e ao mesmo tempo causa indignação com o comportamento da humanidade.
Sinopses não faltam pela internet, mas aqui eu conto apenas a minha experiência.
Fazendo algumas menções honrosas, o primeiro lugar vai para Atticus Finch. O pai de Scout e Jem é o homem mais íntegro de todo o Condado de Maycomb. Quando é escolhido para ser advogado de defesa de Tom Robinson, um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca, ele não o faz somente por obrigação, mas ao saber da inocência de Tom, ele realmente quer defendê-lo. Indo contra quase todos os habitantes da cidade, Atticus sabe as consequências que isso trará a ele e sua família, ” Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa”. Apesar de saber que suas chances são mínimas, Atticus deseja lutar contra a injustiça causada por pessoas cegas pelos seus preconceitos. Acredita que só assim poderá encarar seus filhos de cabeça erguida: mostrando com ações o que ensina com palavras.
Quando Scout arruma briga na escola com um menino que insulta Atticus por ser o advogado de um homem negro, o pai da garota a repreende “(…) levante a cabeça e abaixe os punhos. Não importa o que digam, não deixe que eles a façam perder o controle. Tente lutar com as ideias, para variar…”.
O segundo lugar vai para Jean Louise, mais conhecida como Scout. Ela é mais sensata do que quase toda a população de Maycomb, embora veja tudo com a inocência de uma criança. Na verdade, é sua inocência não corrompida que a leva a fazer questionamentos sobre o por quê de as coisas serem da forma que são. Ela não consegue compreender porquê não pode ir à casa de Calpúrnia, que é uma mulher negra, ou porquê as pessoas se recusam a acreditar em Tom Robinson mesmo quando os fatos apontam para a sua inocência.
Enfim, poderia falar sobre muitas coisas, a escrita maravilhosa de Harper Lee, os personagens inesquecíveis ….
Uma das descrições da autora que mais me marcaram foi o primeiro dia de aula de Scout. Na hora do almoço, enquanto as crianças tiravam suas latas de melado contendo a merenda, as luzes refletiam nas latas e dançavam no teto. Saber aproveitar momentos simples como esse e descrevê-los com tanta sensibilidade é uma verdadeira arte.

 

” Eu não gostava de ler até o dia em que tive medo de não poder ler mais. Ninguém ama respirar” – Scout

Agora um pequeno SPOILER: preciso saber se não sou a única que não consegue acreditar que foi Jem o responsável pelo último acontecimento do livro. Tenho certeza que foi Boo Radley, mas ele preferiu ficar em silêncio. Ou talvez ele simplesmente não pode dizer nada porque sua reclusão por tantos anos afetou sua capacidade de se comunicar e relacionar com as pessoas.

Achei uma grande ironia a situação que aconteceu em frente a casa dos Radley. A casa, no começo, despertava muito medo nas crianças e principalmente morador dela, que acabou sendo alvo de histórias sinistras nascidas da imaginação de Scout, Jem e Dill. No entanto, no fim, o maior perigo não estava dentro da casa, mas fora dela. Talvez essa tenha sido a razão para Arthur se esconder por tanto tempo da sociedade.